Close

Tradições da cozinha portuguesa são enfatizadas no projeto Laços Belém – Portugal

A tradição da “padaria da esquina”, um estabelecimento marcante para os brasileiros, vem de Portugal. Essa influência da cultura portuguesa faz a relação Brasil/Portugal ficar ainda mais próxima, enfatizando hábitos e conhecimentos fundamentais para o desenvolvimento da panificação no Brasil e no estado do Pará, onde a influência portuguesa é muito acentuada.

Mostrar e vivenciar a forte influência portuguesa na cultura paraense, em especial, na gastronomia, é o que visa o projeto Laços Belém – Portugal, que será realizado na capital paraense, nos dias 7 e 8 de junho, em uma promoção da Prefeitura de Belém, por meio da Companhia de Desenvolvimento e Administração da Área Metropolitana de Belém (Codem).

Comidas e bebidas – O encerramento do evento, no dia 8, uma sexta-feira, no final da tarde, será em meio a um Festival Gastronômico, no qual 30 restaurantes de Belém, de comidas portuguesas e locais, vão oferecer um prato que faz parte de seu cardápio e um outro que evoque a cozinha de Portugal.

Nos estandes espalhados na praça Frei Caetano Brandão, entre as igrejas de Santo Alexandre e da Sé, será possível degustar e adquirir o pastel de bacalhau à Pavulagem, do Pastel Pavulagem; o arroz de bacalhau da Saldosa Maloca; o Pato Real, do restaurante Cantinho do Pará; o arroz de Óbidos, do Boteco do Camarão; o alheiras de Mirandela (embutido típico português que é feito com carne de aves, pão, azeite, banha, alho e colorau), assinado pelo Boteco Arsenal; o rancho à portuguesa (ensopado de carnes), do Pimenta de Cheiro; o sorvete Porto Cacau, feito pela Ice Bode; o bolinho de bacalhau e o arroz de polvo, da Adega das Onze; e uma linguiça especial, chamada pescalhoada, da Linguiçaria Paraense.

O porco à Beira Alta é a opção da Toró Gastronomia Sustentável; o risoto português virá com o Engenho Dedé; bolinhos do Cabral são a oferta da Casa Mia; um açorda de camarão (feito de sobras de pão, azeite, alho, ovos, coentro e camarões) será feito pelo Lá em Casa; pastéis de vatapá e de pirarucu defumado são de autoria do Brasileirinho; a Santé Saudável traz um arroz de cabrito; a Mercearia Vicente levará o Bacalhau de Casaca Nova (versão portuguesa para o prato típico paraense Pirarucu de Casaca); entre outras iguarias que buscaram seus ingredientes na tradicional cozinha portuguesa.

Além dos pratos, haverá uma barraca com venda de sardinhas assadas na brasa; oferta de chocolates e doces; uma outra com a presença de quatro boieiras e venda de frutas e vinhos.

Padarias – A padaria portuguesa não chegou ao Brasil a bordo das caravelas, à época do descobrimento em 1500. O período que consolidou a panificação lusa como grande influência no País foi entre os séculos XIX e XX, quando, por meio do intenso fluxo de imigrantes entre os dois países, um grande número de portugueses recomeçou a vida no Brasil.

A maioria dos imigrantes chegou ao Brasil e foi trabalhar em lavouras. Uma parcela menor abriu seu pequeno negócio para nutrir as necessidades das cidades. Foi nessa época que o trigo conseguiu ganhar o espaço antes ocupado apenas pela mandioca e pelo milho.

No início do século XX, os empreendimentos portugueses já tinham seus públicos fiéis nas cidades brasileiras, que eram formados pela vizinhança dos estabelecimentos e aqueles que compravam pão das carrocinhas. A estimativa é que, durante a década de 30, mais da metade das padarias eram de portugueses, que empregavam principalmente os conterrâneos lusos.

Tradição – Em Belém, esse hábito não foi diferente. A produção de pães era uma tradição familiar, com a equipe dessas padarias portuguesas sendo formada, principalmente, por membros da família, conhecidos e outros conterrâneos à procura de emprego.

Depois de tantos anos no Brasil, os padeiros portugueses estabeleceram sua marca e os estabelecimentos procuram manter a herança familiar, ou seja, o negócio passa de uma geração a outra e sustenta as tradições das padarias ao longo dos anos.

Um caso típico dessa tradição portuguesa em Belém é a padaria Sagres, localizada no bairro de Batista Campos, um dos locais mais conhecidos da capital paraense. O lugar é propriedade da família Noronha Tavares há 32 anos.

“Começamos com a venda de pães comuns, diretamente na rua ao público. Mais tarde, percebemos que esse comércio precisava ser diversificado, e passamos às vendas nos balcões, procurando variar a produção. Foi assim que começamos a venda de bolinhos de bacalhau e outros, como a pizza de tabuleiro, que começou aqui conosco. O diferencial dessa pizza é o formato quadrangular, a massa que foi inventada por nós aqui e os produtos de qualidade que utilizamos na produção”, explica Fernando Manoel de Noronha Tavares, proprietário da padaria Sagres.

Assados – Outro diferencial da Sagres é a venda de produtos como pernil e peru assados. À época do Natal, esses produtos são tradição nas ceias natalinas, a produção da Sagres trabalha dobrado. “As encomendas aumentam consideravelmente e quem passa por aqui às vésperas do Natal já viu como fica muito movimentado. Depois de alguns anos, já conseguimos dividir as entregas entre os dias 23 e 24 de dezembro, mas ainda assim, a movimentação é muito grande”, conta Fernando.

Atualmente, a maioria das padarias trabalha em um modelo parecido com o dos minimercados, que oferecem não apenas os produtos da panificação, como também itens de alimentação. Essa evolução não é exclusivamente brasileira, e em Portugal, as grandes padarias já mudaram a variedade de produtos e serviços oferecidos.

A Sagres tem uma pequena loja de conveniência, na qual podem ser comprados bacalhau, azeites e vinhos portugueses e outros produtos. “Todos são de primeira qualidade, que é o que faz nosso cliente voltar. Nossa propaganda é boca a boca e quem vem aqui, com certeza, recebeu recomendações de outra pessoa. Procuramos trabalhar sempre com produtos de reconhecida qualidade e sempre frescos. Aqui, o bolo de limão tem limão, mesmo, e o de laranja é laranja pura. Nada de produtos industrializados”, enfatiza Fernando.

Regional – Nos balcões refrigerados da Sagres, o presunto de Parma importado convive em perfeita harmonia com o queijo do Marajó. Assim como, é possível comer uma típica tapioquinha paraense. “Alguns dos nossos clientes chegam e nos pedem que coloquemos bacalhau na tapioquinha, no que são atendidos, porque aqui o cliente, alguns deles que nos frequentam desde que abrimos a padaria, tem sempre razão”, conta o empresário.

Fernando também enfatiza a produção do sanduíche de metro, que tem muita saída; o patê de queijo cuia; a rosca de frutas cristalizadas, que é uma tradição natalina, mas que tem produção diária na Sagres; e o bacalhau refogado e embebido em muito azeite de oliveira português.

Combate – A também tradicional padaria Combate, instalada há mais de 20 anos no bairro de Nazaré, segue de perto os costumes tradicionais portugueses e as inovações pelos quais o setor está passando.

A fabricação de produtos de padaria e confeitaria na Combate, com predominância de produção própria, é o forte do empreendimento. Dentre os produtos mais procurados no local destacam-se os pães (cacetinhos ou franceses, de leite, de milho, baguete, sírio e bisnaguinhas), torradas, bolos, panetones, roscas, broas, tortas com maior teor de recheios, como as famosas tortas alemãs e holandesas; biscoitos, salgados, croissants, coxinhas, enrolados, risoles e muitas outras variedades, como as conhecidas carolinas, que na Combate têm uma versão salgada.

A padaria, tal como a Sagres, também vende a tradicional tapioquinha paraense – vendida num combo com café – e tem um café da manhã bastante procurado pela vizinhança e por quem trabalha nas imediações. Além disso, seguindo a tendência do mercado, tem uma pequena loja de conveniência, onde se encontram produtos de outras origens e também alguns que evocam a tradição portuguesa, como vinhos e azeites.

A publicitária Dani Rachid Viana é frequentadora fiel da padaria. “Amo o cheesburguer da padaria Combate. É imbatível! E a variedade de opções da lanchonete, também é demais. Muitas vezes já saí da minha rota normal, só por conta do tal cheesburguer e acabo levando outras delícias”, conta.

Processos – O cuidado com a produção da Sagres é grande, mas Fernando está presente em todos os processos, e muitas das vezes, ele mesmo passa à cozinha e põe, literalmente, a mão na massa. “Alguns amigos chegam e pedem determinado prato, e eu mesmo o preparo, porque se torna uma ocasião especial”, diz Fernando.

Um dos processos diários mais demorados na Sagres é o que prepara o pernil de porco. Segundo Fernando, são necessárias 24 horas para a iguaria ficar pronta. “Começa com o descongelamento, depois o pernil fica de molho por várias horas, marinando, e só depois é assado. Nesse processo é um dia inteiro”, informa. O resultado é um pernil assado no ponto, dourado e pronto para ser consumido na forma da peça inteira ou vendido em lascas.

Serviço:

Evento “Laços Belém – Portugal”, dias 7 e 8 de junho. No dia 8 (sexta-feira), das 9 às 16 horas, exposições, debates e recital de poesias, na Estação das Docas; a partir das 17 horas, Festival Gastronômico, com venda de comidas e bebidas em barraquinhas no entorno da praça Frei Caetano Brandão, entre as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, na Cidade Velha. Programação gratuita.

 

Por Dedé Mesquita

Mais Notícias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *