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Saudade embalada em isopor

“Tô num estágio da vida que até sonhei que estava na Feira da 25 (de Setembro) procurando caranguejo, mas não achava e meu marido recomendava comprar o peixe frito – outra coisa que é bem diferente do nosso”, conta a jornalista Ingrid Pípolos, 37 anos, para demonstrar o tamanho do desejo e da saudade que sente das comidas típicas de Belém. Ela e o marido Gladstone, 45 anos, mudaram para Florianópolis (SC) há pouco mais de dois anos e, por conta da distância, não conseguem ter sempre em casa os tão sonhados pratos paraenses.

Até a farinha d’água faz falta… Para Ingrid não tem sido nada fácil encontrar os ingredientes em Florianópolis, nem mesmo os temperos usados por aqui. A jornalista conta que antes vivia recebendo encomendas com as guloseimas enviadas diretamente de Belém, mas com a mudança nas tarifas das companhias aéreas, o bom e velho isopor ficou de lado. “Quando nossos familiares ou amigos vinham nos visitar, o preço da estadia era o isopor recheado, agora com essa saudade das comidas eu ando até sonhando”.

A forma que, aqueles que vivem fora de Belém, têm para matar a saudade das comidas é se render ou se “arriscar” nos locais que anunciam a venda de comidas típicas. “Um restaurante anunciou que ia vender comida paraense. Resolvemos ir e eu pedi um vatapá. Quando achei que seria a hora de matar a saudade, ele mais parecia um mingau, tava fino demais, o camarão, não adianta nem ‘catar’, constatei que a gente realmente não tem opções por aqui”, disse Ingrid.

Como a jornalista, outros paraenses espalhados pelo mundo sofrem a saudade dos sabores da terra. Exemplo é o analista de marketing, Márcio Moreira, 29 anos, que há nove, aceitou oferta de emprego no Rio de Janeiro. Casou e criou raízes, mas sempre dá um jeitinho de degustar os pratos paraenses por lá mesmo. “Logo que cheguei na cidade descobri que tinha um restaurante que vendia comidas típicas, e, como eu canto e toco, passei a fazer uma espécie de permuta. Com o dinheiro que ganhava, comprava tudo em comida por lá mesmo. Era quase um “job for food”, lembra.

Vantagem – Há também quem tenha visto oportunidades na distância de Belém, como Elton Uchoa, 30 anos, que revende açaí em Manaus. O fruto tornou-se fonte de renda para Elton, que há mais de seis anos trabalha com a distribuição dele também em Boa vista (RR) e Porto Velho (RO).

“Antes de apostar nesse mercado eu fiz uma pesquisa, conversei com as pessoas, principalmente, prasaber o que elas achavam do açaí local. As respostas eram unânimes: é fino, não tem o mesmo gosto. Então, como eu tinha a acessibilidade de conseguir o fruto direto de Belém, resolvi apostar. Eram eles tentando achar a fonte, e eu tentando encontrar o espaço no mercado”, revela o empreendedor. “Eu amo meu Estado. Tenho orgulho de vender um produto oriundo de lá”.

O reconhecimento e sentimento de pertencimento que estes paraenses têm em comum é porque também compartilham o orgulho do lugar de onde vieram e valorizam a cultura, principalmente a culinária local. Por sinal, uma das culinárias mais apreciadas no mundo e que já rendeu reconhecimento da Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o título de Cidade Criativa da Gastronomia.

Encontro – Enquanto muita gente lá fora sonha com os pratos, há quem venha de longe para conhecer de perto nossas iguarias. Em novembro a capital paraense vai sediar o Encontro Mundial das Cidades Criativas da Gastronomia, que ocorre entre os dias 07 e 11, com a participação de mais de 15 países confirmados. O evento é uma promoção da Prefeitura de Belém, com o apoio do Governo do Estado e da Unesco.

Nos cinco dias Belém vai realizar uma verdadeira promoção dos elementos que garantiram inserção na Rede de Cidades Criativas. “Esse momento que a culinária paraense vive é fruto de um trabalho árduo e muito bonito que vem sendo desenvolvido desde o grande precursor que foi Paulo Martins, que levantou a bandeira da gastronomia paraense, mas também é fruto de um trabalho que a prefeitura vem fazendo desde quando se inscreveu para concorrer ao titulo da Unesco”, enfatiza a representante do município no Encontro, Cláudia Sadalla.

A expectativa, segundo Sadalla, é que o evento seja a apoteose de todo o empenho. “Somente cinco cidades entre todas da Rede realizaram esse evento. Belém será a sexta e primeira do Brasil a receber o Encontro Mundial das Cidades Criativas. Ele vem coroar todo este esforço que tem a finalidade fazer com que o mundo conheça o potencial da nossa gastronomia e da nossa cultura. O Pará é sem dúvida, detentor da culinária mais original do Brasil”.

Por Karla Pereira

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