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“Cooking Show” promove disputa inédita de chefs das Cidades Criativas

A disputa foi acirrada e os 40 minutos designados para a confecção dos pratos não impediram que as criações tivessem o melhor resultado possível. Assim foi o “Desafio dos chefs – Cooking Show”, evento contemplado na programação do Encontro Mundial das Cidades Criativas da Gastronomia da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), realizado nesta quinta-feira, 9, no Polo Joalheiro.

Organizado pela chef paraense Ângela Sicília, o “Cooking Show” promoveu uma festa ao paladar a partir de uma dinâmica que dividiu os chefs de cozinha participantes do Encontro em seis duplas, uma delas de chefs brasileiras e as demais compostas por um profissional brasileiro e outro estrangeiro. Um chef indicou ao outro um ingrediente da sua região ou nacionalidade para a criação e montagem dos pratos. Tudo isso na frente do público.

“Esta foi uma ideia da própria Prefeitura de Belém, que queria promover este intercâmbio, e foi justamente o que conseguimos com a disputa. Quando, por exemplo, tenho que cozinhar uma receita minha, me foco na receita e pouco converso, mas quando preciso usar algo que nunca usei na vida preciso conversar com outro chef, então isso gerou uma interação muito grande entre eles, e foi prazeroso para ambos”, explicou Ângela Sicilia, que entendeu que esta foi uma excelente oportunidade de mostrar o que a região tem in natura. “Os nossos produtos aqui tem um sabor, e quando ele precisa ser exportado tem outro, então eles estão provando na fonte”, completou.

Roberto Smeraldi, do Instituto Atá, de Alex Atala (SP), respondeu pela equipe científica do desafio, contando sobre a origem dos alimentos utilizados, e também sobre a importância deles para a biodiversidade de cada localidade.

Durante o “Cooking Show” o público pôde fazer a degustação dos pratos criados, o que gerou ainda mais interação entre os participantes. “Este evento foi uma grande oportunidade para quem, assim como eu, está envolvido com a gastronomia. O melhor disso tudo é ver o Pará em evidência e isso fortalece muito a nossa cultura. Belém está sendo muito reconhecida e a gente tem que aproveitar esse momento”, afirmou a personal chef Verena Aquino.

Disputa – Doze chefs participaram do “Cooking Show”, que contou com Roberto Smeraldi, do Instituto Atá, de Alex Atala (SP), respondendo pela equipe científica do desafio. As duplas foram divididas da seguinte maneira: Isabel Hagemann e Jussara Lunas; Saulo Jennings e Brian Smith (Tucson); Arturzao e Pablo Guzman (Colômbia); Paulo Anijar e Ibrahim Doga (Turquia); Daniela Martins e Johan Gavelin (Suécia); e Ofir Oliveira e Miguel Bahena (México).

E foi para garantir a mistura harmônica de sabores que o chef Saulo Jennings, de Santarém, levou para a disputa um ingrediente bastante conhecido da região Amazônica, a farinha de piracuí, apresentando o produto para o chef Brian Smith, de Tucson, nos Estados Unidos, que deu em troca o suco de fruta do cacto do deserto. “Fui surpreendido porque, inicialmente, achei que viria uma fruta do cacto e depois acabei recebendo apenas o suco. Mas tudo bem, eu consegui trabalhar ela de três formas diferentes para compor a entrada, o prato principal e a sobremesa, todos com base nas composições gastronômicas que temos na nossa região. Eu quis mostrar a versatilidade de fazer vários pratos com o mesmo produto. Afinal, como o próprio nome do evento diz, eu precisava criar, mas sabendo casar cada um dos sabores, esse é o item principal”, destacou Saulo.

Já o chef Brian conta que a trabalhar com a farinha de piracuí foi simples, pois conseguiu combinar com o ingrediente que trouxe dos Estados Unidos. “Trouxe para Belém o milho apimentado e com ele pude fazer a criação do prato. Mas, acima de tudo, dessa mistura de sabores, a experiência de conhecer a cultura gastronômica do Pará está sendo extraordinária, pois é a primeira vez que venho ao Brasil, mas já me entusiasmei para voltar”, disse Brian.

Para o chef de cozinha que integra a comitiva de Florianópolis (SC), Daniel Paiva, a experiência do Encontro em Belém já está servindo de exemplo para a realização da próxima edição, que ocorrerá em Santa Catarina. “A Prefeitura de Belém está de parabéns pela brilhante organização, foi um verdadeiro show de demonstração da cidade. Eu estou encantado, principalmente por conhecer o sabor da culinária local, de verdade. Sou mais um que vai de Belém saindo com duas bagagens: uma de roupas e a outra de tanta comida boa que levo daqui”, contou.

Workshop – A manhã do terceiro dia do Encontro Mundial das Cidades Criativas da Unesco foi dedicada ainda a estudos e reflexões com o workshop “O Que a Biodiversidade Oferece para Gastronomia e o que a Gastronomia Pode Fazer para a Biodiversidade?”. O Polo Joalheiro, no bairro do Jurunas, recebeu um público expressivo de pesquisadores, professores, alunos e convidados da área gastronômica para discutir a questão.

O workshop foi coordenado por Roberto Smeraldi, jornalista, escritor, co-fundador e vice-presidente do Instituto Atá, de São Paulo, e dividido em dois momentos. A primeira sessão foi voltada para um apanhado de pesquisas históricas e suas aplicações. O professor Carlos Alfredo Joly falou sobre “Explicando a biodiversidade”; em seguida, o pesquisador Bráulio Ferreira de Souza Dias fez um painel sobre “Conservação e uso: o quadro internacional atualizado”; o pesquisador americano Charles Roland Clement mostrou seu trabalho enfocando “Com raízes na pré-história: nativo, exótico, selvagem, domesticado?”; e o jornalista paraense Fernando Jares falou sobre “Com raízes na história: diversidade como recurso”.

A segunda parte do workshop teve foco nas questões de como a biodiversidade se relaciona com o mercado consumidor. O etnobotânico, antropólogo médico e cineasta Glenn H. Shepard fez palestra sobre “A etnobotânica e o alimento: tradições e fronteiras”; e o engenheiro químico e empresário paraense César de Mendes falou sobre “Do conhecimento ribeirinho aos mercados”.

Para Roberto Smeraldi, o principal objetivo do workshop foi o de mostrar como a gastronomia e a biodiversidade se inter-relacionam, e como Belém pretende oferecer, em um futuro próximo, um programa de atividades regulares unindo esse dois segmentos. “Vamos fazer as definições dos conceitos. Depois vamos concluir, com passos mais práticos, e iremos apresentar a proposta do Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade, aqui em Belém. Ou seja, vamos mostrar que em relação a esses temas Belém vai poder ser um ponto de intercâmbio, de estudo, de referência para as demais cidades criativas da Unesco do mundo inteiro”, adiantou Smeraldi.

Pesquisas – Os pesquisadores enfatizaram alguns pontos das pesquisas deles, como o professor Joly, que mostrou que 60% dos carboidratos consumidos no mundo vêm de apenas quatro alimentos, que são milho, arroz, trigo e batata. O professor Bráulio Dias fez um alerta sobre como as florestas mundiais estão perdendo áreas e as questões climáticas estão se agravando. Já o pesquisador Charles Clement mostrou um histórico dos alimentos domesticados e de como essa prática depende da agrobiodiversidade e da atividade humana; e Fernando Jares enfocou a pesquisa que faz sobre como, ao longo dos séculos, as cozinhas indígena e europeia se uniram em uma fusão única. O segundo painel teve foco no mercado, especialmente a fala de César de Mendes, que é proprietário da marca “Demendes”, especializada em chocolates exóticos, elaborados com cacau nativo e especiarias oriundas da Floresta Amazônica.

A professora universitária de gastronomia Juliana Dias disse que eventos como o workshop servem também para que os paraenses saibam o que está sendo feito nessa área no Estado. “O mundo inteiro fala da nossa gastronomia, mas parece que nós não damos a devida importância que esse segmento merece, não vejo uma valorização. Encontros como esse nos ajudam a valorizar o que é nosso, e aprender mais sobre isso, valorizando esse conhecimento”, frisou a professora.

Com colaboração de Dedé Mesquita, da Comus.

Por Karla Pereira

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